O atendimento psicanalítico constitui um espaço de fala, escuta e elaboração, no qual a pessoa pode tratar de seus sofrimentos, relações, conflitos, sonhos, lembranças, desejos e acontecimentos de sua vida sem precisar organizar previamente aquilo que deseja dizer. Um dos fundamentos desse trabalho é a associação livre, método proposto por Freud que convida o analisando a falar aquilo que lhe ocorre, inclusive pensamentos aparentemente banais, desconexos, constrangedores ou contraditórios. Ao longo desse processo, repetições, lapsos, silêncios, afetos e modos particulares de narrar a própria história podem revelar relações que não eram percebidas conscientemente, permitindo que novos sentidos sejam construídos.
A escuta do psicanalista não se reduz, portanto, a aconselhar ou oferecer explicações prontas. Suas intervenções procuram favorecer associações, interrogar repetições e ajudar a tornar pensável aquilo que ainda não encontrou palavras. A própria relação estabelecida entre analista e analisando — a transferência — também participa do trabalho, pois nela podem reaparecer formas significativas de desejar, confiar, temer, esperar e relacionar-se com o outro.
A ética psicanalítica fundamenta-se no sigilo, no respeito à singularidade e na recusa de impor ao analisando crenças, valores, diagnósticos identitários ou modelos de felicidade. O analista não ocupa o lugar de mestre da vida do outro: não decide quem alguém deve ser, o que deve desejar ou como deve viver. Seu compromisso é sustentar uma escuta responsável para que cada pessoa possa reconhecer algo de sua própria história e de seu desejo, elaborar seus sofrimentos e construir maneiras mais livres e responsáveis de participar da própria existência.